Você é hipertenso? Exame de pressão arterial permite várias leituras

Medir a pressão do sangue parece algo muito objetivo. Enfie o braço na braçadeira por alguns segundos, e ali estão eles: dois números simples, tudo de que se precisa saber para decidir se estamos em um nível saudável ou se está alto e deveríamos tomar uma entre as várias medicações baratas que podem reduzir a pressão sanguínea.

Contudo, a realidade é mais confusa, como eu descobri recentemente ao testar a minha.

Acontece que a pressão pode variar bastante — até quatro pontos em um só dia no meu caso — o que me fez indagar em qual leitura confiar.

Desde que escrevi sobre uma mulher que negava a pressão alta até que teve um derrame, eu me preocupava com o fato de que minha pressão pudesse subir sem eu saber. Fiquei novamente interessada quando informei que um grande estudo realizado nos Estados Unidos, com pessoas com risco elevado de infarto ou acidente vascular, constatou que reduzir a pressão muito abaixo das diretrizes nacionais norte-americanas — pressão sistólica abaixo de 12 e não de 14, ou abaixo de 15 para quem ter mais de 60 anos –, reduziu acentuadamente a taxa de óbitos e de infartos, derrames e paradas cardíacas. Os resultados foram tão atraentes que os comitês das diretrizes devem rever suas recomendações.

Uma semana após a publicação do estudo, decidi conferir a pressão com um aparelho caseiro antes de um futuro exame médico. Na primeira noite, fiquei surpresa ao ver que minha pressão sistólica era de assustadores 13,7. Na noite seguinte, era de apenas 11,7. Na manhã seguinte, antes de ir ao médico, de aterrorizantes 15,2. No consultório, bateu em 15. Medi novamente naquela noite e havia caído para 11. E minha pressão diastólica, o número mais baixo, estava no fundo do poço naquela noite: seis.

Parecia irreal. Eu tinha hipertensão porque a pressão bateu em 15 pela manhã? Mas se eu tomasse remédios para baixá-la, o que aconteceria se minha pressão tentasse cair para 11 à noite?

Consultei alguns especialistas.

“Em poucas palavras, você é normal”, afirmou o Dr. David McCarron, pesquisador associado da Universidade da Califórnia, campus de Davis, acrescentando que qualquer pessoa cuja pressão caia para 12 ou, no meu caso, para 11 por seis, não tem hipertensão. Seu conselho aos pacientes é se abster de monitorar obsessivamente a pressão do sangue.

“Se você for saudável e não tiver problemas de saúde relacionados, irá perder mais meses ou anos de vida com qualidade conferindo a pressão frequentemente do que se não o fizesse”, ele escreveu por e-mail.

Medir a pressão do sangue é complicado, disse a Dra. Suzanne Oparil, diretora de cardiologia preventiva da Universidade do Alabama, campus de Birmingham, e investigadora do estudo clínico, chamado Sprint, que constatou que pressão abaixo de 12 era preferível no caso de pacientes de alto risco.

“Existe muita controvérsia sobre quando e como medir”, disse Suzanne. Se ela permanecer muito alta ao longo do tempo com diversas medições, não existe erro no diagnóstico de hipertensão. E se ela for normalmente muito baixa, as flutuações diárias, em geral, não vão levá-la a uma zona perigosa. Os problemas surgem quando a pressão fica no meio.

“As diretrizes nos EUA são baseadas em pressões do sangue clínicas tiradas de um jeito que poucas instituições fazem”, afirmou Suzanne. O paciente deve descansar cinco minutos em uma cadeira, não na maca, e não deve conversar. Os pés devem estar no chão, as costas retas e apoiadas. O paciente não pode ter ingerido cafeína e não deve ter fumado na última meia a uma hora. Segundo ela, se esse procedimento não for seguido, a medição costuma ser falsamente elevada e não reflete a verdadeira pressão do sangue.

Assim que ela faz um diagnóstico de hipertensão, incentiva os pacientes a aprender a medir corretamente a pressão do sangue e manter um registro do que estiver fora de um ambiente de consultório. Quando consulta os pacientes, ela leva em consideração as medições feitas em casa e na clínica para ajustar a medicação.

Existe outra opção: um aparelho que mede automaticamente a pressão a cada 15 ou 30 minutos durante o dia e a cada 30 ou 60 minutos à noite. A pessoa usa o equipamento durante 24 horas. Segundo Suzanne, no Reino Unido esse tipo de monitoramento ambulante é exigido antes de um médico poder diagnosticar a pressão alta. Porém, nos EUA, os pacientes muitas vezes se recusam, dizendo que não conseguem dormir com a braçadeira inflando durante a noite.

E mesmo assim, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos, grupo independente patrocinado pelo governo federal que esboça as diretrizes médicas, concluiu em relatório, em fevereiro, que a monitoração da pressão durante 24 horas era a maneira preferida para confirmar se a pessoa tem ou não pressão alta.

“Isso parece surpreendente para muita gente”, disse o Dr. David Maron, diretor de Cardiologia Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Stanford. Além da inconveniência, o exame custa centenas de dólares, embora costume ser reembolsado pelos convênios médicos.

A pressão medida no consultório pode estar errada em metade das vezes, informou a Força-tarefa. Entretanto, o grupo descobriu muita variabilidade de estudo para estudo. Em 24 estudos nos quais os pacientes tinham a pressão medida no consultório e na versão ambulante, a proporção de quem tinha pressão alta nos dois testes variava de 35 por cento a 95 por cento nas diferentes investigações.

A Força-tarefa concluiu que as pessoas cuja pressão estava na média alta normal nas consultas médicas se arriscavam a receber um diagnóstico errado e receberem tratamento desnecessário. Embora o grupo não tivesse dados sobre quantas pessoas com pressão normal foram tratadas como hipertensas, ele concluiu que “um número substancial” poderia se enquadrar nessa categoria.

Meu médico sugeriu o teste de 24 horas, mas agora não sei mais se quero. Se McCarron estiver certo de que não tenho hipertensão, de que adianta? Ou, seguindo o conselho de Suzanne Oparil, devo medir minha pressão duas vezes ao dia durante vários dias e mandar as medições ao meu médico? Ela se disse “muito satisfeita” com a leitura baixa e não achava que eu tinha pressão alta.

Ah, a simplicidade de um exame de colesterol!